Todos nós já estamos cansados de saber que a vida do consumidor brasileiro é uma piada. Isto não é nenhuma novidade. Basta ligar para a Central de Atendimento de sua operadora de telefonia solicitando qualquer esclarecimento para se ter uma noção exata da dimensão do problema. Hoje mesmo, recebi um trote malicioso de algum desocupado (como eu) e resolvi ligar para a Oi com a intenção de perguntar se era possível descobrir o número do telefone de quem fez a brincadeira de mau gosto. Talvez eu até contratasse o tal do BINA (lembrei agora da Dona Bina que morava aqui na rua…) mas, a conclusão foi que uma maldita voz gravada ficava dizendo “não entendi” “não entendi” e quem não entendeu mais nada fui eu. Desisti. Parece que não há ninguém de carne e osso do outro lado da linha. Vai ver que o trote também era gravação.
Há tempos venho lutando para convencer a Vivo (operadora de telefonia móvel) de que não é correto eu pagar R$ 139,00 por mês pra usar o famigerado Vivo Zap, porque eles não me fornecem os 2,4 Mbps prometidos na propaganda. Todas essas situações são bastante conhecidas e provavelmente você já vivenciou algo parecido no seu dia-a-dia.
Entretanto, algo mais grave parece estar acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, e muitos de nós não estamos percebendo: trata-se de uma institucionalização da velha conhecida “propaganda enganosa”. Empresas sérias (?) de credibilidade internacional estão se permitindo levar por esta nova onda, que ao que parece, irá se tornar em breve um Tsunami. As vítimas, como sempre, seremos nós, consumidores.
Esta tal institucionalização a que me refiro vem apresentada sob as máscaras publicitárias, superproduções e idéias engraçadas que visam distrair o consumidor. Vejamos alguns exemplos:
O tal do “veja bem, doutor” que invadiu nossas telinhas no horário nobre mostra claramente o que estou tentando dizer. Um predreiro nordestino trabalha mal e ao ser interrogado pelo dono da obra solta o bordão “veja bem, doutor”. Além de não ser nada original, como analisa Celso Muniz em seu blog, o comercial desvia o foco da questão a que deveria se referir o vídeo, que seria a qualidade do produto (Cimento Votorantin, no caso). Veja neste link a versão da Votorantin sobre a campanha. O anúncio tenta induzir no consumidor a idéia de que “se eu não usar este cimento minha obra vai ter problemas”, mas na verdade, o problema mostrado no comercial é uma parede torta, culpa do pedreiro… Estão tentando nos enfiar goela abaixo uma idéia que com um mínimo de raciocínio, qualquer pessoa pode descartar pelo abuso. Pena que os publicitários sabem que a maioria não vai prestar atenção e o que vai ficar gravado é a mensagem terrorista sobre o fracasso da obra, caso não se use o cimento Votorantin. Mas a verdade é que, por pior que seja o cimento, a parede só vai sair torta se o pedreiro for muito ruim.
A TIM (mais uma operadora de telefonia móvel) começou há alguns meses a bombardear a cidade com um outdoor que traz a seguinte mensagem: “Venha para a TIM, a mais nova líder de mercado do Brasil”. Esta me parece ainda pior que a anterior, pois vai na onda de “O Papa é pop”, em que todo mundo tá comprando os mais vendidos. Nínguém deveria escolher uma empresa só por que ela é líder de mercado. Uma empresa deve se tornar líder de mercado porque todos a escolheram. Este é o caminho natural e tudo que vai contra a natureza soa muito mal. Novamente, milhares de celulares foram vendidos e a TIM está rindo à toa.
A vinheta da Rádio Band News Fluminense que roda a cada meia hora diz: “Band News Fluminense, a primeira rádio do Rio só de notícias e só FM!” O que será que nos quis dizer o autor desta vinheta? Literalmente é o que o texto diz: a Band News Fluminense só transmite notícias e é apenas FM, ou seja não existe uma versão AM da emissora, como é o caso da Rádio CBN. Mas, qualquer pessoa inteligente, sabe que isto é na verdade uma desvantagem da Band News em relação à CBN. Então surge a pergunta: por que esta vinheta vai ao ar a cada meia hora, exaltando uma deficiência da emissora? Fica evidente a má intenção. A Rádio Band News não poderia colocar no ar uma vinheta que dissesse: “A Band News é a única rádio FM que só toca notícias” pois, existe a CBN FM. Desta forma, criaram este texto incoerente que, captura um ouvinte distraído no trânsito, que a partir daí só vai ouvir a Band News quando estiver interessado em notícias, pensando que ela é a única emissora que faz isso em FM. E a CBN nada pode fazer porque o texto, não diz nehuma mentira. Apenas induz ao erro.
Existe ainda, o pobre comercial da Revisão nas Autorizadas Ford. A personagem que surge pra estragar a viagem de uma família feliz se apresenta como a famosa Lady Murphy. A mensagem a ser transmitida é a de que se você não fizer a Revisão do seu carro em uma Autorizada Ford, ele vai dar pau (a Lady Murphy aparece). O autor da peça publicitária demonstra total desconhecimento do assunto ao criar esta personagem. A impressão que se tem é a de que este sujeito apenas ouviu falar da Lei de Murphy e não se deu ao simples trabalho de pesquisar a correta grafia dos termos. Parece que ele imaginou esta senhora sem graça, que melou o passeio da família, depois de ouvir alguém contar alguma história sobre Lei de Murphy. Mal sabe ele que mesmo que a revisão fosse feita pelo melhor profissional do mundo, na melhor oficina do mundo, algum item crucial seria esquecido e a viagem seria interrompida, não de qualquer forma, mas da forma mais difícil possível de se resolver. Este é o verdadeiro espírito da Lei de Murphy, do qual o infeliz publicitário tentou se apoderar, sem sucesso.
Por último, comento o comercial da Banda Larga Terra, que diz que “banda largona é que é bom”, quando, na verdade, sequer existe a Banda Larga Terra. O papel dos provedores de banda larga é apenas autenticar o usuário, ou seja, dizer ao Velox, por exemplo, que você está autorizado a nevegar através dele. A velocidade é exatamente a mesma para qualquer provedor. Não tem essa de que a Banda Larga Terra é mais larga que as outras. Mas, é exatamente isso que diz a propaganda e todos estão acreditando.
Um olho no padre e outro na consciência. E así pasan los dias…
André Fernandes Branco