Perdido no Trem da Central
26 September, 2007 2:00 pmDurante o período em que trabalhei no centro do Rio, meu principal meio de transporte foi o trem. Deslocava-me diariamente, às seis da manhã, da estação de Paciência, pacato bairro da Zona Oeste, em direção à estação Dom Pedro II, também chamada Central do Brasil. E fazia, no fim do dia, o trajeto inverso. Nesta fase de minha vida, testemunhei os mais diversos episódios, de trágicos a hilários.
Numa certa tarde quente de dezembro, não lembro o ano, o trem parou, por motivo desconhecido pelos passageiros, entre as estações de Deodoro e Vila Militar. Como já era coisa corriqueira, poucas pessoas manifestaram insatisfação durante os primeiros trinta minutos. Afinal, dentro do trem há todo tipo de entretenimento, desde vendedores de canivetes suíços originais a grupos de evangélicos com seus pandeiros infernais tocando e cantando para o Senhor. E nestes primeiros momentos, cada um se arrumava como podia, espremendo-se no pequeno espaço (quase um curral, segundo O Rappa), alguns com fones de ouvido aderindo a nova febre dos walkmans, que eram vendidos ali mesmo, outros se organizando em grupos de quatro pra jogar sueca, com baralho também comprado no local. De alguma maneira, aquelas pessoas, que se conheciam por acaso, criavam laços de amizade duradouros e por vezes pude vê-las combinar visitas e churrascos nas residências de um ou outro. Quando alguém fazia aniversário, levavam bolo, guaraná e balões pra encher. Era quase inacreditável a forma como todo o vagão cantava o “parabéns pra você”. Algumas pessoas, vinham de outros vagões atraídas pela cantoria, pois sabiam que haveria alguma coisa pra degustar. De fato, não se fazia restrição. Quem comeu, comeu, quem não comeu, deixa pra próxima. Esse era o lema.
Após quarenta minutos, alguns já arriscavam um respeitável palavrão outros um discreto resmungo lateral. Passados cinquenta minutos do enguiço da máquina, uns já haviam arrombado a porta, ”pra entrar um ar” e já corria o boato sobre tiroteio mais a frente. Eu permanecia em meu assento, com Nietzsche sob a axila, tentando enxergar alguma ordem no caos de inputs vindos de todos os lados.
Num dado momento, um senhor de aparência familiar se dirige a minha pessoa. Gordo, baixo, óculos e bigode, não era um tipo estranho. Toca meu ombro: “e aí, André? tudo bem?”. Sem reconhecê-lo, mas, disse meu nome, respondo, enquanto faço esforço pra lembrar do sujeito: “estou bem, e o senhor?”. “Vou bem, graças a Deus”, sorri. Segue-se um pequeno silêncio, como uma oportunidade única de recordar o nome da figura. E ele prossegue: “você mudou de horário, né?”. De fato, eu trabalhava à noite e há alguns meses havia passado para o turno da manhã. Seria uma pista? “Mudei, sim. De manhã acho melhor…”, respondi. E o velho continua: “você está usando óculos, é?”. O sotaque nordestino desta vez me fez acreditar que, realmente, o senhor à minha frente era alguém bastante conhecido, mas eu não conseguia me lembrar, “é, faz um mês, é mais pra leitura”, disse eu. Sem coragem de arriscar palavra que fosse, esperei pelo próximo comentário pra tentar pescar mais alguma coisa. E lá vem ele: “e como está a Edna?” Dessa vez passou perto. O cidadão conhecia minha tia Edna. Seria ele alguém da feira? “ela está muito bem”, respondo e ele continua ”mande um abraço pra ela, diga que gosto muito dela. E de você também”. Bastante constrangido com a situação, resolvi por um fim a conversa: “pode deixar, mando sim. Qualquer hora o senhor aparece lá”. “Apareço, sim, ainda é naquele mesmo lugar?”, pergunta. Havia algo de errado, pois, minha tia e eu nunca fomos, sequer, vizinhos. “É lá, sim”, espirro sem maiores detalhes. E seguiu-se um silêncio de vários minutos entre nós, rompido apenas pelo sorriso eventual do simpático amigo que, a essa altura, eu daria tudo pra lembrar quem era. De repente, pra meu desespero ele volta a fazer perguntas: “a Edna tá trabalhando de manhã também?”. Minha tia era aposentada há anos, trabalhou como feirante mas já havia parado. Por um instante fiquei sem saber o que responder. Depois, soltei meio que sem querer: “não sei, faz um tempo que não a vejo”. E o velho: “como não sabe? você não sabe o horário que a sua mulher trabalha, rapaz?”. Por vários segundos, senti meu corpo paralizado. Aquele trem enguiçado há uma hora, gente gritando todo tipo de coisas ao meu redor e esse cidadão ali, um simpático desconhecido… estava evidente que ele me confundira com outra pessoa. Mas, foram tantas as coincidências e tão grande era o entusiasmo do velhote em me “reencontrar” que fiquei sem ação para informar-lhe a verdade. Com muito sacrifício soltei “nós estamos nos separando”, tentando explicar o motivo de não saber dos horários da mulher. E foi supreendente a reação do velho que, em pouco tempo, caiu em prantos dentro daquele trem lotado. E eu, vivendo a situação mais constrangedora da minha vida nada pudia fazer, senão tentar consolá-lo. Enquanto chorava ele dizia: “o mundo está perdido, um casal tão bonito… foi chifre?” pergunta, interrompendo o choro. “Incompatibilidade de gênios”, tento justificar. “Eu vou com você até lá, tenho que falar com ela… isso não pode ficar assim.”, se oferece o amigo.
A essa altura, eu já não via mais saída, precisava informar ao homem sobre seu equívoco. Mas já havia provocado tantas coisas na cabeça dele que não sabia o que fazer. Para o meu desespero ele começa a aprofundar o assunto: “seu avô já sabe disso?” Ora, meu avô era falecido, mas não arrisquei dizer isso a ele. ”Sabe”, respondi. “E ele aceitou?”, retrucou. Eu já não aguentava mais. Parecia que todas as pessoas ao meu redor haviam parado pra prestar atenção ao que eu dizia. Resolvi não dizer nada. Tive vontade de me levantar, e o fiz. Quando fiz, o velho mandou mais uma: “poxa, como você emagreceu! Separação deve ser brabo mesmo. E o Cezinha, como tá?”. Vendo meu silêncio novamente, o velho percebeu que eu não estava muito afim de conversa e calou-se. Por idiotice total da minha pessoa, respondi após alguns instantes “está bem”. E começa tudo de novo: “ele já melhorou daqueles negócios?”.
Sem condições de prosseguir com o diálogo, e sob as vistas de uma senhora, que só agora me dava conta, havia prestado atenção em toda a conversa eu parto pro tudo ou nada: “acho que o senhor está me confundindo com alguém!” Na mesma hora o semblante amigável e terno deu lugar a uma fisionomia confusa e até certo ponto contrariada. ”Mas, você não é o André, filho do Genival?”, perguntou. “Não, sou o André, filho do Milton” respondi. E o homem, sem mais nem menos, desembestou a proferir todos os xingamentos que conhecia na minha direção: “seu filho de uma égua, mentiroso, safado. Você gosta de enganar velho é? pois fique sabendo que eu não sou besta não seu baitola…” As pessoas começaram, agora de verdade, a se virar em direção a nós dois, ali de pé. Não demorou para a maioria tomar partido em favor do velho e fazer coro pra me ofender. Comecei a ficar com medo de levar uma surra ali mesmo. Já pensou, apanhar depois de um dia inteiro de trabalho, por causa de um assunto tão tosco? Comecei a bandear pro lado da porta aberta, mas um sujeito de quase dois metros de altura fez barreira e não me deixou passar. Eu estava em pânico. Pra onde eu tentava me deslocar alguém impedia. De repente, uma fumaça começou a tomar conta do ambiente. Por um instante pensei que fosse desmaiar. Percebi, então, que a fumaça não era psicológia. Alguém gritou: “o trem tá pegando fogo!”. E foi um verdadeiro alvoroço. Gente correndo pra pular da composição. O velho havia sumido. Em poucos segundos o vagão estava vazio. E eu sem saber pra onde ir, com medo de descer e dar de cara com o maldito desconhecido de novo. Pulei nos trilhos e corri em direção à estação. Procurei rapidamente a saída e entrei no primeiro ônibus que vi. Pela janela, pude ver o velho cercado por um grupo de pessoas e dois policiais. Quando o ônibus andou, senti um alívio que há muito tempo não sentia…
Deste dia em diante, nunca mais andei de trem.
André Fernandes Branco



