Uma cabeça na estação

1:02 am

Algumas vezes, nos momentos em que me encontro perdido entre o real e o irreal, diversas idéias me visitam e se despedem com a mesma simplicidade. E isso me incomoda um bocado. Talvez pelo fato de a vida toda eu ter me considerado um gênio não-compreendido, ou pior, pelas pessoas terem me julgado gênio por não me compreenderem, ou ainda, pelos verdadeiros gênios terem me compreendido e descoberto o quanto sou burro, ou mais, pelos falsos burros que nada compreendem e assim são felizes de verdade, essa coisa me incomoda. Idéias vêm e vão. A cabeça parece a Central do Brasil. Gente chegando, gente saindo. Quando pára o trem é alvoroço. Um corre pra pegar o banco ainda aberto, outro canta a moça que mal conheceu, o velho procura os óculos, o vendedor de óculos foge do guarda… Nada de novo acontece. O trem sempre chega e parte. Cheio, sujo, feio. Chega e parte. A plataforma é a parte que aos transeuntes menos importa. A maioria se comporta de forma padrão. Parece que miram seus alvos no além e seguem reto em direção aos seus calabouços de tudo ou nada. Nada de novo acontece. Trespassam milhares. As idéias passam. Se eu fosse um caiçara, tentaria improvisar um puçá pra capturá-las. Talvez mais tarde elas rendam uma sopa de letras pra comer com os mariscos raspados das pedras da praia do inconsciente. É uma pena que esta praia não esteja acessível. Ela deve ser bonita… Possivelmente deserta. Os analistas dizem que as pessoas dentro dos trens estão vindo de lá… Mas será que é pra lá que elas voltam depois de ganharem o mundo? Tomara que esta comida não dê dor de barriga, porque dor de cabeça já está dando. Uma espécie de prisão sem grades parece me envolver quando me encontro nesse estado. É como estar o tempo inteiro usando capacete. A Pedra Filosofal está ali, a alguns milímetros, mas não pode ser tocada. Não pela razão convencional. Talvez a simplicidade seja a origem do desconforto. Talvez não. E a diversidade de sentidos nas palavras acaba provocando uma avalanche de novas idéias. A televisão fala sobre o aquecimento global, mas não usa papel reciclado. Nem pergunta ao povo se ele sabe o significado da palavra “aquecimento”. Se o povo sabe o que é “global”. Se o povo sabe que é povo. Se sabe o que é saber. E se souber, pra que serve. Um sábio chinês, certa vez, me ensinou que falsificar é legitimo, desde que sejam respeitadas as cores e as formas do original. Diante disto, coloquei-me a meditar a respeito das idéias que falsifico. Descobri que Chacrinha era um sábio chinês… Dizem que não existe pessoa igual à outra. Penso que talvez nem existam pessoas. Mas se penso, logo, existo. Desisto. As pessoas são todas iguais. Xiitas e boçais como essas linhas que brotam à minha frente. Contudo, as linhas garantem ligeira vantagem na minha estima. Estão ao menos ajudando a aliviar o incômodo provocado pelos transeuntes que passam pela Central do Brasil.

André Fernandes Branco

Crônicas
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