Capitão Nascimento para Governador

6:20 pm

Não há como negar o fenômeno sócio-antropológico provocado pelo filme “Tropa de Elite” de José Padilha. Protagonizado pelo renomado ator Wagner Moura, o filme conta o dilema do Capitão Nascimento, dividido entre seus ideais de bom policial, defensor da lei e da ordem e a necessidade de sair do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio) por não estar mais suportando  o prejuízo em sua vida pessoal devido à dura jornada contra o crime.

Basicamente, dois fenômenos podem ser observados por ocasião da “aparição” do filme nas ruas das cidades brasileiras. O primeiro é que pela primeira vez observa-se uma discussão aberta e coerente a respeito da pirataria. Soluções alternativas estão sendo apontadas e finalmente estamos assumindo publicamente que a pirataria existe e abandonado a “síndrome do pior cego”.  Entretando, é sobre o segundo fenômeno que pretendo focar estas linhas.

Utilizando-se de métodos totalmente questionáveis para combater o crime organizado, que lembram bastante os tempos da Ditadura Militar, o Capitão Nascimento tornou-se o mais novo Herói Nacional, em  detrimento de Diego Hipólito, Ronaldinho Gaúcho e muitos outros. Por todos os lugares, reais e virtuais (veja artigo de Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes), cidadãos de bem repetem os bordões do Oficial PM e idolatram suas atitudes e comportamentos, como se fossem cometidos por eles próprios, ou como se tivessem vontade de fazê-lo.

O que levaria uma sociedade sufocada e castigada pela violência considerar “bonito” ou “correto”, sessões de tortura e execuções praticadas por representantes do Estado? Será que já nos esquecemos do nosso passado recente? Ou será que estamos retrocendedo à Era Medieval, banalizando novamente a violência?

Arrisco uma opinião, na tentativa de amenizar e partir em defesa do povo, embora eu queira destacar que sou totalmente contra qualquer tipo de violência, seja ela física ou não. Acredito que o povo brasileiro vem sofrendo uma “crise existencial em massa“, uma espécie de desordem social que trasnforma os seres humanos em meros “sobreviventes“. Ficamos condenados a assistir futebol com nosso coração nas mãos, enquanto dirigentes de clubes fazem acordos sinistros com máfias Russas e enviam dólares a paraísos fiscais. Assistimos, todos os dias, durante décadas, novelas das 6, das 7 e das 8 que contam sempre as mesmas histórias (com raras exceções) de golpes milionários e roubos de esposas e nos consideramos satisfeitos, pois, nossa realidade é um pouco distante disso e como sabemos, nossa memória é convenientemente curta. Vivemos a dura rotina dos assaltos, estupros, fome, corrupção, falta de educação e buscamos na ficção algo que extrapole essa insatisfação latente, que muitos de nós nem desconfiamos portar.

O Capitão Nascimento, de certa forma, é um representante do Estado que produz algum resultado positivo, mesmo que usando procedimentos inadequados, e isto, na fantasia das pessoas preenche a lacuna deixada pelas Autoridades. Este policial representa uma esperança de mudança. Mesmo que saibamos que elá não ocorrerá. Basta dizer que  é muito fácil organizar um ônibus para ir ao Maracanã ver o jogo do Flamengo, mas, é muito difícil reunir 50 assinaturas em um abaixo-assinado para solicitar uma passarela sobre a Av. Brasil. Na tela, pelo menos, podemos sonhar com um esperança de melhora.

O filme Tropa de Elite retrata muito bem a realidade do abandono das Políticas de Segurança Pública no estado do Rio de Janeiro e também o cotidiano das classes sociais e suas relações no processo de falecimento da sociedade. Uma cena que quero destacar é a em que um dos “vapores” se dirige à moça da ONG, portando um Fuzil e comenta: “pô, fiz aquela prova!” e a moça pergunta: “passou?” e ele: “moleza!”.  Esta cena retrata a realidade do crime no Brasil. Muitos dos que estão no tráfico não gostariam de estarem ali. Estão por falta de opção, falta de emprego. A cena mostra muito inteligentemente a possibilidade de recuperação daquele rapaz através da Educação. Porém, enquanto estivermos vivendo o que Betinho chamava de “Ditadura da Informação”, continuaremos condenados à antiga política do “panes et circenses” e teremos de nos contentar com raras aparições de Heróis de mentirinha para termos um pouco mais de qualidade de vida.

Nossa gente anda tão alienada que, muito provalvelmente, se o Wagner Moura for candidato a Governador nas próximas eleições, será eleito. Todos achando que votaram no Capitão Nascimento. Talvez, quando chegar ao Senado Federal, posamos ouvir, num discurso inflamado, o nosso querido capitão esbravejar: “Vossa Excelência é um fanfarrão, Presidente!”. E vamos ao cinema!

André Fernandes Branco

Cinema, Viagens e Devaneios
10 Respostas
  1. Marcio Gazetta :

    Date: September 23, 2007 @ 21:51

    Olá André, aproveitando seu artigo, também vou assistir Tropa de Elite.

    Sei la´, eu tava com medo de assistir e me decepcionar.

  2. André Fernandes Branco :

    Date: September 24, 2007 @ 8:00

    É um bom filme. Vale a pena assistir.

  3. Cathalá :

    Date: September 24, 2007 @ 16:31

    André, agradeço a visita e o comentário em meu blog, ao mesmo tempo em que parabenizo por sua análise sobre o filme.

    Infelizmente os comentários que lí no meu blog e em outros fóruns corroboram o que você descreveu, no sentido de que muita gente endossa o comportamento, que reputo criminoso, por parte da personagem Cap Nascimento.

    Ademais, já temos alguns capitães Nascimentos povoando nossas assembléias e câmaras legislativas. Não demorará para algum deles ser eleito governador.

    à disposição.
    grande abraço.

  4. Anok :

    Date: September 25, 2007 @ 9:14

    Ótima crítica!

    Essa explosão do Cap. Nascimento é exatamente isso: ele “faz” alguma coisa, mesmo que errada, mas faz. por isso o povo gostou dele.

  5. Mariana :

    Date: September 25, 2007 @ 22:30

    Violência? Estando a favor da polícia, eu não me importo. Na verdade, eu senti até certo prazer em ver traficante sendo morto no filme (baixei pelo eMule, pretendo ver de novo no cinema). Já morei num lugar dominado pelo tráfico, e sei a falta que fazem os policiais íntegros. Certa vez, metade dos PMs da minha cidade foram presos por corrupção. E não, não sou de Duque de Caxias. Eu morava numa cidade que fazia fronteira com a Bolívia, no Mato Grosso do Sul. É bom ver que de vez em quando o brasileiro ainda consiga sentir orgulho de alguma coisa daqui, e que ótimo se o orgulho for pela PM!

    Na verdade, quando se fala em ditadura logo se pensa em repressão e violência. As pessoas esquecem que os comunistas que lutavam contra a ditadura eram os mesmos que preendiam instalar um regime não menos opressor que a ditadura em si. E comunismo, graças a Deus, está praticamente extinto.

  6. André Fernandes Branco :

    Date: September 25, 2007 @ 22:48

    Ainda sim sou a favor da velha máxima: violência gera violência. Sem contar que bandido é igual a capim: você mata aqui e ele nasce ali. As medidas que realmente fariam algum efeito duradouro devem partir das autoridades e devem ser direcionadas a educação, trabalho e dignidade. Obrigado por deixar sua opinião.

  7. Quinelatto :

    Date: September 28, 2007 @ 13:41

    Pelo menos assim a gente iria mudar nossa forma de votar: Se o Wagner Moura se candidatar e a gente vai votar no ator pensando que é o personagem. Atualmente, em todas as eleições, a gente vota no personagem pensando que é o ator… E vamos ao cinema…

  8. André Fernandes Branco :

    Date: September 28, 2007 @ 14:42

    hahahahaha… muito boa essa!

  9. (in)Segurança - Curto e grosso | Hebdomadário Cultural :

    Date: November 3, 2007 @ 22:52

  10. Jorcelio Ramos da Silva :

    Date: January 25, 2008 @ 8:01

    Olá prezado, amigo Fernandes;
    na sua pergunta? “O que levaria uma sociedade sufocada e castigada pela violência considerar “bonito” ou “correto”, sessões de tortura e execuções praticadas por representantes do Estado? Será que já nos esquecemos do nosso passado recente? Ou será que estamos retrocendedo à Era Medieval, banalizando novamente a violência?” na sua pergunta encontra-se implicita a resposta,istoé, a população é narcisística só enxerga o que lhe é espelho.O mito de narciso nunca esteve tão presente na humanidade.

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