Perdido no Trem da Central

2:00 pm

Durante o período em que trabalhei no centro do Rio, meu principal meio de transporte foi o trem. Deslocava-me diariamente, às seis da manhã, da estação de Paciência, pacato bairro da Zona Oeste, em direção à estação Dom Pedro II, também chamada Central do Brasil. E fazia, no fim do dia, o trajeto inverso. Nesta fase de minha vida, testemunhei os mais diversos episódios, de trágicos a hilários. 

Numa  certa tarde quente de dezembro, não lembro o ano, o trem parou, por motivo desconhecido pelos passageiros, entre as estações de Deodoro e Vila Militar. Como já era coisa corriqueira, poucas pessoas manifestaram insatisfação durante os primeiros trinta minutos. Afinal, dentro do trem há todo tipo de entretenimento, desde vendedores de canivetes suíços originais a grupos de evangélicos com seus pandeiros infernais tocando e cantando para o Senhor. E nestes primeiros momentos, cada um se arrumava como podia, espremendo-se no pequeno espaço (quase um curral, segundo O Rappa), alguns com fones de ouvido aderindo a nova febre dos walkmans, que eram vendidos ali mesmo, outros se organizando em grupos de quatro pra jogar sueca, com baralho também comprado no local. De alguma maneira, aquelas pessoas, que se conheciam  por acaso, criavam laços de amizade duradouros e por vezes pude vê-las combinar visitas e churrascos nas residências de um ou outro. Quando alguém fazia aniversário, levavam bolo, guaraná e balões pra encher. Era quase inacreditável a forma como todo o vagão cantava o “parabéns pra você”. Algumas pessoas, vinham de outros vagões atraídas pela cantoria, pois sabiam que haveria alguma coisa pra degustar. De fato, não se fazia restrição. Quem comeu, comeu, quem não comeu, deixa pra próxima. Esse era o lema.

Após quarenta minutos, alguns já arriscavam um respeitável palavrão outros um discreto resmungo lateral. Passados cinquenta minutos do enguiço da máquina, uns já haviam arrombado a porta, ”pra entrar um ar” e  já corria o boato sobre tiroteio mais a frente. Eu permanecia em meu assento, com Nietzsche sob a axila, tentando enxergar alguma ordem no caos de inputs vindos de todos os lados.

Num dado momento, um senhor de aparência familiar se dirige a minha pessoa. Gordo, baixo, óculos e bigode, não era um tipo estranho. Toca meu ombro: “e aí, André? tudo bem?”. Sem reconhecê-lo, mas, disse meu nome, respondo, enquanto faço esforço pra lembrar do sujeito: “estou bem, e o senhor?”. “Vou bem, graças a Deus”, sorri.  Segue-se um pequeno silêncio, como uma oportunidade única de recordar o nome da figura. E ele prossegue: “você mudou de horário, né?”. De fato, eu trabalhava à noite e há alguns meses havia passado para o turno da manhã. Seria uma pista? “Mudei, sim. De manhã acho melhor…”, respondi. E o velho continua: “você está usando óculos, é?”. O sotaque nordestino desta vez me fez acreditar que, realmente, o senhor à minha frente era alguém bastante conhecido, mas eu não conseguia me lembrar, “é, faz um mês, é mais pra leitura”, disse eu. Sem coragem de arriscar palavra que fosse, esperei pelo próximo comentário pra tentar pescar mais alguma coisa. E lá vem ele: “e como está a Edna?” Dessa vez passou perto. O cidadão conhecia minha tia Edna. Seria ele alguém da feira? “ela está muito bem”, respondo e ele continua ”mande um abraço pra ela, diga que gosto muito dela. E de você também”. Bastante constrangido com a situação, resolvi por um fim a conversa: “pode deixar, mando sim. Qualquer hora o senhor aparece lá”. “Apareço, sim, ainda é naquele mesmo lugar?”, pergunta. Havia algo de errado, pois, minha tia e eu nunca fomos, sequer, vizinhos. “É lá, sim”, espirro sem maiores detalhes. E seguiu-se um silêncio de vários minutos entre nós, rompido apenas pelo sorriso eventual do simpático amigo que, a essa altura, eu daria tudo pra lembrar quem era. De repente, pra meu desespero ele volta a fazer perguntas: “a Edna tá trabalhando de manhã também?”. Minha tia era aposentada há anos, trabalhou como feirante mas já havia parado. Por um instante fiquei sem saber o que responder. Depois, soltei meio que sem querer: “não sei, faz um tempo que não a vejo”. E o velho: “como não sabe? você não sabe o horário que a sua mulher trabalha, rapaz?”. Por vários segundos, senti meu corpo paralizado. Aquele trem enguiçado há uma hora, gente gritando todo tipo de coisas ao meu redor e esse cidadão ali, um simpático desconhecido… estava evidente que ele me confundira com outra pessoa. Mas, foram tantas as coincidências e tão grande era o entusiasmo do velhote em me “reencontrar” que fiquei sem ação para informar-lhe a verdade. Com muito sacrifício soltei “nós estamos nos separando”, tentando explicar o motivo de não saber dos horários da mulher. E foi supreendente a reação do velho que, em pouco tempo, caiu em prantos dentro daquele trem lotado. E eu, vivendo a situação mais constrangedora da minha vida nada pudia fazer, senão tentar consolá-lo. Enquanto chorava ele dizia: “o mundo está perdido, um casal tão bonito… foi chifre?” pergunta, interrompendo o choro. “Incompatibilidade de gênios”, tento justificar. “Eu vou com você até lá, tenho que falar com ela… isso não pode ficar assim.”, se oferece o amigo.

A essa altura, eu já não via mais saída, precisava informar ao homem sobre seu equívoco. Mas já havia provocado tantas coisas na cabeça dele que não sabia o que fazer. Para o meu desespero ele começa a aprofundar o assunto: “seu avô já sabe disso?” Ora, meu avô era falecido, mas não arrisquei dizer isso a ele. ”Sabe”, respondi. “E ele aceitou?”, retrucou. Eu já não aguentava mais. Parecia que todas as pessoas ao meu redor haviam parado pra prestar atenção ao que eu dizia. Resolvi não dizer nada. Tive vontade de me levantar, e o fiz. Quando fiz, o velho mandou mais uma: “poxa, como você emagreceu! Separação deve ser brabo mesmo. E o Cezinha, como tá?”. Vendo meu silêncio novamente, o velho percebeu que eu não estava muito afim de conversa e calou-se. Por idiotice total da minha pessoa, respondi após alguns instantes “está bem”. E começa tudo de novo: “ele já melhorou daqueles negócios?”.

Sem condições de prosseguir com o diálogo, e sob as vistas de uma senhora, que só agora me dava conta, havia prestado atenção em toda a conversa eu parto pro tudo ou nada: “acho que o senhor está me confundindo com alguém!” Na mesma hora o semblante amigável e terno deu lugar a uma fisionomia confusa e até certo ponto contrariada. ”Mas, você não é o André, filho do Genival?”, perguntou. “Não, sou o André, filho do Milton” respondi. E o homem, sem mais  nem menos, desembestou a proferir todos os xingamentos que conhecia na minha direção: “seu filho de uma égua, mentiroso, safado. Você gosta de enganar velho é? pois fique sabendo que eu não sou besta não seu baitola…” As pessoas começaram, agora de verdade, a se virar em direção a nós dois, ali de pé. Não demorou para a maioria tomar partido em favor do velho e fazer coro pra me ofender. Comecei a ficar com medo de levar uma surra ali mesmo. Já pensou, apanhar depois de um dia inteiro de trabalho, por causa de um assunto tão tosco? Comecei a bandear pro lado da porta aberta, mas um sujeito de quase dois metros de altura fez barreira e não me deixou passar. Eu estava em pânico. Pra onde eu tentava me deslocar alguém impedia. De repente, uma fumaça começou a tomar conta do ambiente. Por um instante pensei que fosse desmaiar. Percebi, então, que a fumaça não era psicológia. Alguém gritou: “o trem tá pegando fogo!”. E foi um verdadeiro alvoroço. Gente correndo pra pular da composição. O velho havia sumido. Em poucos segundos o vagão estava vazio. E eu sem saber pra onde ir, com medo de descer e dar de cara com o maldito desconhecido de novo. Pulei nos trilhos e corri em direção à estação. Procurei rapidamente a saída e entrei no primeiro ônibus que vi. Pela janela, pude ver o velho cercado por um grupo de pessoas e dois policiais. Quando o ônibus andou, senti um alívio que há muito tempo não sentia…

Deste dia em diante, nunca mais andei de trem.

André Fernandes Branco

Crônicas, Contos 1 Comentário

Alcorão Digital

9:04 pm

Não posso deixar passar em branco a notícia que corre pela Internet a respeito da mais nova sensação do mundo Muçulmano: trata-se do Alcorão Digital!O sagrado aparelho O aparelho, uma espécie de Ipod ou MP4 melhorado, reproduz os textos do Alcorão e pode ser visto nas mãos de centenas de pessoas pelas ruas da Indonésia, maior país muçulmano do mundo, durante as comemorações deste Ramadã. Segundo os comerciantes locais, cerca de 50 unidades do aparelho são vendidas por dia, cada uma  pela bagatela de 900 mil rupias (aproximadamente R$ 120). Mas os recursos não se limitam a ouvir os versos sagrados recitados pelo xeque Abdul Rahman Al-Sudais, da Grande Mesquita de Meca. Os usuários podem ainda ler na tela de LCD traduções das escrituras em diversas línguas, serem alertados nos horários das orações e o mais incrível: o santo aparelhinho aponta a direção de Meca!

Esta união entre tradição e tecnologia mostra algo, no mínimo, curioso: é um retrato de um mundo cada vez mais apressado, que criou uma solução bastante razoável para o problema da falta de tempo para Deus que enfrentamos hoje, segundo os religiosos. É muito mais fácil ouvir do que ler, isso é verdade, até certo ponto, e o aparelho vem a calhar. Faço votos de que surjam  outras versões do player como a Bíblia Sagrada, o Bhagavad Gita, o Tao Te Ching, Livros de Alan Kardec e todos os outros. O que tem de gente por aí tentando nos converter sem nem saber do que estão falando não está no gibi…

Resta saber se vão começar a piratear o aparelho e suas mensagens. Será que quem ouve CD pirata do Cid Moreira recitando versículos da Bíblia vai pro céu? Meu vizinho ouve uns Cds piratas de música gospel e garante que sua vaguinha já está garantida. Que assim seja!

 Veja nestes sites a notícia, em diversas versões:

O Globo Online   Folha Online   Expresso (Portugal)   MSN Brasil

Santa tecnologia!

André Fernandes Branco

Viagens e Devaneios 2 Comentários

Capitão Nascimento para Governador

6:20 pm

Não há como negar o fenômeno sócio-antropológico provocado pelo filme “Tropa de Elite” de José Padilha. Protagonizado pelo renomado ator Wagner Moura, o filme conta o dilema do Capitão Nascimento, dividido entre seus ideais de bom policial, defensor da lei e da ordem e a necessidade de sair do BOPE (Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio) por não estar mais suportando  o prejuízo em sua vida pessoal devido à dura jornada contra o crime.

Basicamente, dois fenômenos podem ser observados por ocasião da “aparição” do filme nas ruas das cidades brasileiras. O primeiro é que pela primeira vez observa-se uma discussão aberta e coerente a respeito da pirataria. Soluções alternativas estão sendo apontadas e finalmente estamos assumindo publicamente que a pirataria existe e abandonado a “síndrome do pior cego”.  Entretando, é sobre o segundo fenômeno que pretendo focar estas linhas.

Utilizando-se de métodos totalmente questionáveis para combater o crime organizado, que lembram bastante os tempos da Ditadura Militar, o Capitão Nascimento tornou-se o mais novo Herói Nacional, em  detrimento de Diego Hipólito, Ronaldinho Gaúcho e muitos outros. Por todos os lugares, reais e virtuais (veja artigo de Gustavo de Almeida e Marcele Fernandes), cidadãos de bem repetem os bordões do Oficial PM e idolatram suas atitudes e comportamentos, como se fossem cometidos por eles próprios, ou como se tivessem vontade de fazê-lo.

O que levaria uma sociedade sufocada e castigada pela violência considerar “bonito” ou “correto”, sessões de tortura e execuções praticadas por representantes do Estado? Será que já nos esquecemos do nosso passado recente? Ou será que estamos retrocendedo à Era Medieval, banalizando novamente a violência?

Arrisco uma opinião, na tentativa de amenizar e partir em defesa do povo, embora eu queira destacar que sou totalmente contra qualquer tipo de violência, seja ela física ou não. Acredito que o povo brasileiro vem sofrendo uma “crise existencial em massa“, uma espécie de desordem social que trasnforma os seres humanos em meros “sobreviventes“. Ficamos condenados a assistir futebol com nosso coração nas mãos, enquanto dirigentes de clubes fazem acordos sinistros com máfias Russas e enviam dólares a paraísos fiscais. Assistimos, todos os dias, durante décadas, novelas das 6, das 7 e das 8 que contam sempre as mesmas histórias (com raras exceções) de golpes milionários e roubos de esposas e nos consideramos satisfeitos, pois, nossa realidade é um pouco distante disso e como sabemos, nossa memória é convenientemente curta. Vivemos a dura rotina dos assaltos, estupros, fome, corrupção, falta de educação e buscamos na ficção algo que extrapole essa insatisfação latente, que muitos de nós nem desconfiamos portar.

O Capitão Nascimento, de certa forma, é um representante do Estado que produz algum resultado positivo, mesmo que usando procedimentos inadequados, e isto, na fantasia das pessoas preenche a lacuna deixada pelas Autoridades. Este policial representa uma esperança de mudança. Mesmo que saibamos que elá não ocorrerá. Basta dizer que  é muito fácil organizar um ônibus para ir ao Maracanã ver o jogo do Flamengo, mas, é muito difícil reunir 50 assinaturas em um abaixo-assinado para solicitar uma passarela sobre a Av. Brasil. Na tela, pelo menos, podemos sonhar com um esperança de melhora.

O filme Tropa de Elite retrata muito bem a realidade do abandono das Políticas de Segurança Pública no estado do Rio de Janeiro e também o cotidiano das classes sociais e suas relações no processo de falecimento da sociedade. Uma cena que quero destacar é a em que um dos “vapores” se dirige à moça da ONG, portando um Fuzil e comenta: “pô, fiz aquela prova!” e a moça pergunta: “passou?” e ele: “moleza!”.  Esta cena retrata a realidade do crime no Brasil. Muitos dos que estão no tráfico não gostariam de estarem ali. Estão por falta de opção, falta de emprego. A cena mostra muito inteligentemente a possibilidade de recuperação daquele rapaz através da Educação. Porém, enquanto estivermos vivendo o que Betinho chamava de “Ditadura da Informação”, continuaremos condenados à antiga política do “panes et circenses” e teremos de nos contentar com raras aparições de Heróis de mentirinha para termos um pouco mais de qualidade de vida.

Nossa gente anda tão alienada que, muito provalvelmente, se o Wagner Moura for candidato a Governador nas próximas eleições, será eleito. Todos achando que votaram no Capitão Nascimento. Talvez, quando chegar ao Senado Federal, posamos ouvir, num discurso inflamado, o nosso querido capitão esbravejar: “Vossa Excelência é um fanfarrão, Presidente!”. E vamos ao cinema!

André Fernandes Branco

Cinema, Viagens e Devaneios 10 Comentários

Verdade Concreta

12:18 pm

Um susto
   Faz tremer

                     Tremendo
                                              Susto

Todos os cheques

                             No fim das contas
                                   Foi cheque-mate
                                                                                    Mate-me logo
Ou logo eu ligo

                             Mas se eu ligo
                                      Qualquer assunto
                                                 Você não liga
                                                                                  
                                                                                                   Desliga

E              a              v    i    d   a                  p   e    r   d   e                  a                      l   i   g   a
Prazer         de viver                                                                                 já tive          na vida

                                                                                                                         Na velha mania
Agora esquecida

Refeito do susto
Recebo o presente
Você já ausente
Considero justo

E finjo estar certo
Decerto
É tremendo

Até
Vou crescendo
                                                             Sem você
                                                                             Por perto

André Fernandes Branco

Poemas Comente este post

Controvérsia

1:35 am

Eu não acredito em futuro
Parece abstrato demais
Mais abstrato que amor

Porém, acredito em amor
E que se pode amar eternamente
Mesmo que eternidade seja menção a uma coisa
Que ainda esteja por vir,
Ou que tenha sempre existido
Por mais abstrato que isso pareça

Talvez acredite em futuro
Mas, se é assim, de que me adianta,
Se os livros que esperam na estante
Esperam no amanhã
Se o momento de ler, que é agora
Situa-se, perdido, entre o cansaço e a preguiça
E mingua, silenciosamente,
Escondido nas coisas do cotidiano?

Mas, afinal de contas,
O que é o futuro?
Como será o amanhã?
Responda quem puder…

Será um samba feliz,
De uma terça-feira de feliz carnaval?
Ou triste como um choro, tocado ou vivido?
Quiçá repetição de algo já dito aos quatro ventos?
Mas, quem disse que só existem quatro ventos?

O vento, dizem,
É o ar
Em movimento
Mas na minha cabeça-de-vento está tudo parado
Não há espaço pra pensar em mais nada

Somente caminho,
Sem caminho
Nesta tarde equivocada

André Fernandes Branco

Poemas Comente este post

Uma cabeça na estação

1:02 am

Algumas vezes, nos momentos em que me encontro perdido entre o real e o irreal, diversas idéias me visitam e se despedem com a mesma simplicidade. E isso me incomoda um bocado. Talvez pelo fato de a vida toda eu ter me considerado um gênio não-compreendido, ou pior, pelas pessoas terem me julgado gênio por não me compreenderem, ou ainda, pelos verdadeiros gênios terem me compreendido e descoberto o quanto sou burro, ou mais, pelos falsos burros que nada compreendem e assim são felizes de verdade, essa coisa me incomoda. Idéias vêm e vão. A cabeça parece a Central do Brasil. Gente chegando, gente saindo. Quando pára o trem é alvoroço. Um corre pra pegar o banco ainda aberto, outro canta a moça que mal conheceu, o velho procura os óculos, o vendedor de óculos foge do guarda… Nada de novo acontece. O trem sempre chega e parte. Cheio, sujo, feio. Chega e parte. A plataforma é a parte que aos transeuntes menos importa. A maioria se comporta de forma padrão. Parece que miram seus alvos no além e seguem reto em direção aos seus calabouços de tudo ou nada. Nada de novo acontece. Trespassam milhares. As idéias passam. Se eu fosse um caiçara, tentaria improvisar um puçá pra capturá-las. Talvez mais tarde elas rendam uma sopa de letras pra comer com os mariscos raspados das pedras da praia do inconsciente. É uma pena que esta praia não esteja acessível. Ela deve ser bonita… Possivelmente deserta. Os analistas dizem que as pessoas dentro dos trens estão vindo de lá… Mas será que é pra lá que elas voltam depois de ganharem o mundo? Tomara que esta comida não dê dor de barriga, porque dor de cabeça já está dando. Uma espécie de prisão sem grades parece me envolver quando me encontro nesse estado. É como estar o tempo inteiro usando capacete. A Pedra Filosofal está ali, a alguns milímetros, mas não pode ser tocada. Não pela razão convencional. Talvez a simplicidade seja a origem do desconforto. Talvez não. E a diversidade de sentidos nas palavras acaba provocando uma avalanche de novas idéias. A televisão fala sobre o aquecimento global, mas não usa papel reciclado. Nem pergunta ao povo se ele sabe o significado da palavra “aquecimento”. Se o povo sabe o que é “global”. Se o povo sabe que é povo. Se sabe o que é saber. E se souber, pra que serve. Um sábio chinês, certa vez, me ensinou que falsificar é legitimo, desde que sejam respeitadas as cores e as formas do original. Diante disto, coloquei-me a meditar a respeito das idéias que falsifico. Descobri que Chacrinha era um sábio chinês… Dizem que não existe pessoa igual à outra. Penso que talvez nem existam pessoas. Mas se penso, logo, existo. Desisto. As pessoas são todas iguais. Xiitas e boçais como essas linhas que brotam à minha frente. Contudo, as linhas garantem ligeira vantagem na minha estima. Estão ao menos ajudando a aliviar o incômodo provocado pelos transeuntes que passam pela Central do Brasil.

André Fernandes Branco

Crônicas Comente este post

Interdisciplinar

12:59 am

Falo português
Pratico sociologia
Recebo matemática
E como biologia

Falo português
De Portugal, da padaria
E talvez
Do canibal, se é que esse havia

Pratico sociologia
Da anarquia à hierarquia
Relendo Maquiavel
Rejeito o papel de Caxias

Recebo a temática boa
Na matemática do dia-a-dia
E corto na raiz quadrada
A palavra que não caberia

Assim, como biologia,
Também como qualquer vadia
Viajo por células-tonco
Clonando um amor que existia

E assim vou seguindo
Sem rumo
Sem refil
Seguindo os segundos

Vagabundo de esquina
De carteira assassinada

Cidadão do submundo
Poeta das almas penadas

Sem saber de todas as coisas
Que um dia pensei que sabia

Usando a ciência pra tudo
Vivendo um poema por dia

André Fernandes Branco

Poemas 2 Comentários

Veja bem e a nova líder de mercado

12:44 am

Todos nós já estamos cansados de saber que a vida do consumidor brasileiro é uma piada. Isto não é nenhuma novidade. Basta ligar para a Central de Atendimento de sua operadora de telefonia solicitando qualquer esclarecimento para se ter uma noção exata da dimensão do problema. Hoje mesmo, recebi um trote malicioso de algum desocupado (como eu) e resolvi ligar para a Oi com a intenção de perguntar se era possível descobrir o número do telefone de quem fez a brincadeira de mau gosto. Talvez eu até contratasse o tal do BINA (lembrei agora da Dona Bina que morava aqui na rua…) mas, a conclusão foi que uma maldita voz gravada ficava dizendo “não entendi” “não entendi” e quem não entendeu mais nada fui eu. Desisti. Parece que não há ninguém de carne e osso do outro lado da linha. Vai ver que o trote também era gravação.

Há tempos venho lutando para convencer a Vivo (operadora de telefonia móvel) de que não é correto eu pagar R$ 139,00 por mês pra usar o famigerado Vivo Zap, porque eles não me fornecem os 2,4 Mbps prometidos na propaganda.  Todas essas situações são bastante conhecidas e provavelmente você já vivenciou algo parecido no seu dia-a-dia.

Entretanto, algo mais grave parece estar acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, e muitos de nós não estamos percebendo: trata-se de uma institucionalização da velha conhecida “propaganda enganosa”. Empresas sérias (?) de credibilidade internacional estão se permitindo levar por esta nova onda, que ao que parece, irá se tornar em breve um Tsunami. As vítimas, como sempre, seremos nós, consumidores.

Esta tal institucionalização a que me refiro vem apresentada sob as máscaras publicitárias, superproduções e idéias engraçadas que visam distrair o consumidor. Vejamos alguns exemplos:

O tal do “veja bem, doutor” que invadiu nossas telinhas no horário nobre mostra claramente o que estou tentando dizer. Um predreiro nordestino trabalha mal e ao ser interrogado pelo dono da obra solta o bordão “veja bem, doutor”. Além de não ser nada original, como analisa Celso Muniz em seu blog, o comercial desvia o foco da questão a que deveria se referir o vídeo, que seria a qualidade do produto (Cimento Votorantin, no caso). Veja neste link a versão da Votorantin sobre a campanha. O anúncio tenta induzir no consumidor a idéia de que “se eu não usar este cimento minha obra vai ter problemas”, mas na verdade, o problema mostrado no comercial é uma parede torta, culpa do pedreiro… Estão tentando nos enfiar goela abaixo uma idéia que com um mínimo de raciocínio, qualquer pessoa pode descartar pelo abuso. Pena que os publicitários sabem que a maioria não vai prestar atenção e o que vai ficar gravado é a mensagem terrorista sobre o fracasso da obra, caso não se use o cimento Votorantin. Mas a verdade é que, por pior que seja o cimento, a parede só vai sair torta se o pedreiro for muito ruim.

A TIM (mais uma operadora de telefonia móvel) começou há alguns meses a bombardear a cidade com um outdoor que traz a seguinte mensagem: “Venha para a TIM, a mais nova líder de mercado do Brasil”. Esta me parece ainda pior que a anterior, pois vai na onda de “O Papa é pop”, em que todo mundo tá comprando os mais vendidos. Nínguém deveria escolher uma empresa só por que ela é líder de mercado. Uma empresa deve se tornar líder de mercado porque todos a escolheram. Este é o caminho natural e tudo que vai contra a natureza soa muito mal. Novamente, milhares de celulares foram vendidos e a TIM está rindo à toa.

A vinheta da Rádio Band News Fluminense que roda a cada meia hora diz: “Band News Fluminense, a primeira rádio do Rio só de notícias e só FM!” O que será que nos quis dizer o autor desta vinheta? Literalmente é o que o texto diz: a Band News Fluminense só transmite notícias e é apenas FM, ou seja não existe uma versão AM da emissora, como é o caso da Rádio CBN. Mas, qualquer pessoa inteligente, sabe que isto é na verdade uma desvantagem da Band News em relação à CBN. Então surge a pergunta: por que esta vinheta vai ao ar a cada meia hora, exaltando uma deficiência da emissora? Fica evidente a má intenção. A Rádio Band News não poderia colocar no ar uma vinheta que dissesse: “A Band News é a única rádio FM que só toca notícias” pois, existe a CBN FM. Desta forma, criaram este texto incoerente que, captura um ouvinte distraído no trânsito, que a partir daí só vai ouvir a Band News quando estiver interessado em notícias, pensando que ela é a única emissora que faz isso em FM. E a CBN nada pode fazer porque o texto, não diz nehuma mentira. Apenas induz ao erro.

Existe ainda, o pobre comercial da Revisão nas Autorizadas Ford. A personagem que surge pra estragar a viagem de uma família feliz se apresenta como a famosa Lady Murphy. A mensagem a ser transmitida é a de que se você não fizer a Revisão do seu carro em uma Autorizada Ford, ele vai dar pau (a Lady Murphy aparece). O autor da peça publicitária demonstra total desconhecimento do assunto ao criar esta personagem. A impressão que se tem é a de que este sujeito apenas ouviu falar da Lei de Murphy e não se deu ao simples trabalho de pesquisar a correta grafia dos termos. Parece que ele imaginou esta senhora sem graça, que melou o passeio da família, depois de ouvir alguém contar alguma história sobre Lei de Murphy.  Mal sabe ele que mesmo que a revisão fosse feita pelo melhor profissional do mundo, na melhor oficina do mundo, algum item crucial seria esquecido e a viagem seria interrompida, não de qualquer forma, mas da forma mais difícil possível de se resolver. Este é o verdadeiro espírito da Lei de Murphy, do qual o infeliz publicitário tentou se apoderar, sem sucesso.

Por último, comento o comercial da Banda Larga Terra, que diz que “banda largona é que é bom”, quando, na verdade, sequer existe a Banda Larga Terra. O papel dos provedores de banda larga é apenas autenticar o usuário, ou seja, dizer ao Velox, por exemplo, que você está autorizado a nevegar através dele. A velocidade é exatamente a mesma para qualquer provedor. Não tem essa de que a Banda Larga Terra é mais larga que as outras. Mas, é exatamente isso que diz a propaganda e todos estão acreditando.

Um olho no padre e outro na consciência. E así pasan los dias…

André Fernandes Branco

Viagens e Devaneios Comente este post

Perspectiva

10:26 pm

Não se atreva a pensar
A respeito do que eu escrevo

O que eu escrevo
Não se lê

O que se lê
É o que se pensa
Do seu jeito
Sobre o que eu escrevo

Mas quando eu escrevo,
Eu não penso

Sinto
Sinta

André Fernandes Branco

Poemas Comente este post

No Princípio era o Verbo

12:09 pm

Começo hoje a edição deste novo Blog. Depois de muitas discussões e indecisões, após muitas noites em claro caçando na Internet informações sobre como modificar a aparência, inserir informações extras e melhorar o desempenho de uma maneira geral, chegamos (?) a uma conclusão final. Este post, inaugural, tem gosto de montanha vencida. Estou me sentindo no ápice de uma grande escalada, embora tenha plena consciência de que subi apenas o primeiro degrau. 

É claro que pra muitos, fazer um blog pode ser a tarefa mais simples do mundo, assim como é pra mim consertar uma televisão. O mais interessante é ver que conseguimos chegar a um resultado satisfatório, mesmo sem possuírmos a nossa disposição um especialista em programação. Fazer este blog tem sido muitíssimo agradável, isso sem contar que o blog não dá choque.

Como a origem de tudo é a palavra (mesmo que algumas não possam ser expressas), acreditamos que este pequeno resmungo da alma (plagiando Ferreira Gullar) sirva de incentivo, inspiração, consolo ou mesmo “coisa a não se fazer nunca“  para as pessoas que buscam algo diferente que os atinja de alguma forma.

Neste blog, o leitor encontrará basicamente poemas, contos  e outras loucuras que passam pela cabeça deste cidadão brasileiro, o segundo branco mais preto do Brasil (o primeiro era o Vinícius), que por falta de mais gavetas onde enfiar seus escritos, decidiu amontoá-los nesta gaveta pública.

Espero que o leitor tenha tido paciência de chegar a esta linha. Se chegou, é indício de que talvez eu venha a obter algum sucesso nesta nova empreitada. 

Obrigado pela visita. Seja bem-vindo!   

Viagens e Devaneios Comente este post